abstração

apuro o ouvido ao flautista que homenageia os 250 de Haendel. a viola de gamba acompanha-o num arranhar de cordas, triste e suave. o cravo completa o trio com o som metálico distintamente baixo para não abafar o piar que sai da flauta. sinto-me num bosque onde, num dia de verão, cantam um pássaro, uma abelha e uma cigarra.
tento abstrair-me das tosses e do folhear de programas e alegro-me com os tons maiores da primeira parte, para me entristecer com os menores da segunda. aproveito os intervalos para saciar a curiosidade da mais velha e a fome da mais nova, que se volta a enroscar no meu colo para ouvir, de olhos fechados, aquele pedaço de natureza. sonha com a entrada da Copélia a qualquer momento e com os homens sem calças que rodopiam no palco, sem vergonha. nos olhos abertos da outra leio a admiração pelo fôlego que ela própria treina na sua flauta, sinto o bater do compasso no tempo certo, ouço a contagem dos andamentos para o bater de palmas.

(conjunto de frases influenciado pelo programa cultural da semana: Copélia ou a rapariga dos olhos de esmalte (CNB no Teatro Camões); concerto evocativo dos 250 anos da morte de Haendel (CCB); toccata de Mendelsohn para órgão (TAL); bem como pelo conto Vigilância, de Julian Barnes, em Mesa Limão)


3 comments


  • sininho

    <>back from<> barcelona?


  • K

    Ando a perder boa cultura…</></>Bj


  • K

    Devia ter ficado por lá…</>;)


Leave a comment


Please note, comments must be approved before they are published


Do you want to customize a product with this amazing doodles?

Customize