another one bites the dust

ontem, tropecei na pedra de uma calçada mal assente e de tanta utilidade que carregava não me consegui equilibrar e de tão distraída que estava não antecipei o alvo da queda e lambi o chão.
nada nada partido, nada estragado. cara suja, gengiva esfolada.
atirei com as utilidades que carregava para o banco direito do carro, onde jazia o resto de uma cola não terminada que se desequilibrou e lavou os CDs guardados no sítio do costume, que ao serem levantados molharam uns calções, felizmente pretos.
saí do carro e sentei-me no chão, encostada ao pára-choques, que se estima custar 350 para ser retocado de uma esfoladela distraída ao estilo da minha. e espreitei a óptica nova, já não fundida, que paguei sem ver o preço, mas não consegui ver reflexo nenhum de mim, e desejei que fosse da falta de claridade.
recomposta a saliva à sua cor normal, à custa do resto do gelo da cola, limpei os CDs com os guardanapos de sobra do escocês onde tinha encomendado jantar, que já só me apetecia ver vomitado.
carreguei as utilidades que me pareciam já inúteis, à excepção da escova dos dentes, pasta respectiva e fio dental, que tinha a certeza de vir a dar uso quando entrasse em casa, e levantei o pé para passar por cima da pedra da calçada, agora sim completamente deslocada do seu buraco inicial, e arrastei-me para uma porta encostada, empurrada por um ombro que afinal doía e chamei um elevador com um nó de um dedo sem mossa, o mesmo nó que usei para carregar no andar certo. mas não consegui ver a gengiva no espelho porque a menina do sexto me acompanhou na subida e entrei em casa mal disposta e pensei que não recuperaria da gengiva porque se ninguém me esmurrasse, esmurrar-me-ia a mim própria por não conseguir ficar bem disposta.
e tentei ter uma atitude positiva e pensei: gosto mesmo do sabor do pó entre os dentes e o sangue da gengiva esfolada que se mistura na saliva, que se cospe numa massa lamacenta e avermelhada, que se lava com uma água qualquer, que se cospe até a cor da saliva translúcida voltar a não se ver... mas não resultou.

1 comment


  • na prise és bestial

    a pedra deu este texto. ainda bem que lá estava. parabéns.


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