«pára-arranca»

a sala é arrectangulada e o professor senta-se no canto direito atrás de uma secretária demasiado pequena para o tamanho da bariga que lhe cresceu. senta-se perpendicularmente aos alunos e olha-nos de esguelha. na mão, segura uma vareta de cana que utiliza para nunca se levantar. debita os decretos-lei do código da estrada à letra, sem hesitar. conta experiências do seu passado motard e orgulha-se do tempo em que era ágil e magro como um esquilo. a porta fica sempre aberta. o contabilista entra sem pedir licença, de livro de cheques em punho. interrompe a aula, sem se desculpar, e pede uma assinatura ao professor, que também é patrão, e que gentilmente lhe pergunta pelo filho. esperamos pela aposição da assinatura e assistimos à conversa como se não existissemos. o discurso é retomado. na parede, do lado direiro, ao nível da parte superior da protuberância frontal do professor, avista-se um intercomunicador. a porta continua aberta. ouve-se a conversa das recepcionistas, na recepção que não se avista: uma para inscrições, outra para marcações, outra para atendimento telefónico. uma espirra. o professor diz «santinho» pelo intercomunicador e ela grita «obrigada» do seu posto de trabalho. o discurso é retomado. a terceira chega e cumprimenta as colegas e grita um «bom dia» ao professor, porque sabe que é hora de aula. ele pergunta-lhe pelo intercomunicador se não se esqueceu do pequeno-almoço dele. «claro que não», grita-lhe a tininha. o discurso é retomado...

1 comment


  • Cláudia Abreu Antunes

    Ahahahah
    Muito bom!!


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