to beach or not to beach

ir à praia é para mim uma mistura de tortura e prazer. talvez consequência de ter morado em Coimbra dezoito anos (já lá vão 15...), onde ir à praia implicava fazer não sei quantos quilómetros, por estradas nacionais movimentadas, ou abancar numa praia fluvial com lençóis estendidos nas pedrinhas ao nosso lado, a maior influência para não ter "perdido" um único fim-de-semana na praia foi sem dúvida os meus pais não terem o culto da praia. ir à praia, para mim, era sinónimo de férias em casa dos avós maternos em setúbal, onde era possível procurar-se um lugar ao sol, sem caos de trânsito para consegui-lo, algures entre a figueirinha e o portinho da arrábida. lembro-me do fato-de-banho da minha avó, do toldo que o meu avô montava, antes de voltar para casa, para a sua garagem, para desmontá-lo ao início da tarde quando ia buscar-nos. algarve?! a primeira vez que lá fui já estava prestes a terminar os anos na UC. os fins-de-semana implicavam passeios de bicicleta ao choupal, scrabble e boggle na mesa da sala, encontros com os filhos dos amigos dos pais, reuniões, acampamentos ou caminhadas do clube tdc, visitas a outras cidades portuguesas, estudar.. e nas férias percorria-se a europa de carro, intercalando-se parque de campismo com hotel, embora sempre mais parque de campismo do que hotel. o prazer (e que prazer!) mais aproximado de uma ida à praia passava pelas piscinas municipais.
quando vim morar para sul, com o guincho como vista da varanda da sala, fui poupada ao síndrome da praia ao fim-de-semana, embora tivesse passado a existir nos novos conhecimentos adquiridos quem sofresse de tal síndrome. não quero ser exagerada mas a convivência com imagens de filas de trânsito e multidões na praia e conversas à segunda-feira sobre a praia incomodavam-me. as esporádicas idas à praia eram feitas de mota, e quando era necessário carregar pranchas e velas no jipe as praias tinham demasiado vento para multidões e as lagoas também nunca ficavam hiper-povoadas. e embora nesses dias não pudesse aquecer-me ao sol e o vento fosse quase sempre excessivo para mim, podia ler no carro, com a música a tocar, alheada da ventania exterior. quando a primeira filha nasceu, a casa passou a ter piscina e a praia passou a ser considerada inútil como forma de aquecer ao sol. para mim, que sempre tinha gostado de tardes na piscina sentia-me no paraíso. actualmente, sem piscina mas com vista de mar e serra, a vontade de ir à praia, até para satisfazer o bando de meninos e meninas que fazem parte do meu universo, bateu à porta. agora que os cinco permitem descansar na areia ou ler vagarosamente ao sol, a praia tem qualquer coisa de inútil que me agrada. embora o "louco" seja o último a reconhecer que precisa de ajuda, não tenho qualquer síndrome em relação à praia. aliás como dizia no início, ir à praia é uma mistura de tortura e prazer. pensando bem... à parte o contacto agradável (quando agradável) do sol quente ou da água fria na pele, o prazer de não ter literalmente mais nada para fazer, e um ou outro castelo na areia em quantidade q.b., tudo o resto é odiável... e garanto-vos que sou muito elitista com as praias possíveis (há algumas que nem a dinheiro me conseguem lá encontrar) minimizando a tortura. detesto filas de trânsito para a praia, a menos que a janela esteja fechada e haja um livro qualquer para ler... o que implica não conduzir porque conduzir no trânsito e ler enquanto conduzo tenho disso ao pontapé todos os dias do ano, excepto em agosto (por isso é que o livro do elefante se arrasta...), para ir trabalhar. para além disso, uma fila de trânsito para a praia implica não encontrar lugar para estacionar ou lugar "a milhas" obrigando a carregar as toalhas e brinquedos durante quanto tempo for preciso debaixo do sol quente. mais, se não há lugares decentes para estacionar não deve haver lugar decente para estender duas, quanto mais sete, toalhas sem ouvir a conversa do "vizinho" do lado ou cheirar o bronzeador do "vizinho" da frente ou levar com a bola do "vizinho" de trás. e só consigo descrever isto porque leio muito e tenho uma imaginação muito fértil, porque mais do que cinco minutos numa praia assim nunca estive. a fechar a tarde, a sensação da areia nos pés e nas mãos como se fosse lixa e o sal seco a arrepanhar-me a pele, faz-me suplicar por uma torneira, uma garrafa de água, cuspo (nem vale a pena comentarem!). talvez seja outro síndrome qualquer, o meu, porque confesso que fazer figas para não estar vento na cresmina, para não estar nublado na adraga ou fazer não sei quantos quilómetros para esticar a toalha no carvalhal para chegar lá e estar a chuviscar, ou o parque estar cheio, é com certeza sinónimo de algum tipo de doença... mas sabem que mais?! mandem tratar-me! a mim e ao resto da população que tem o síndrome contrário... vamos ficar sempre em "praias" diferentes.

4 comments


  • little joe

    :-D

    a distância entre mim e o litoral é um problema mínimo quando o comparo com o da distância entre mim e o equador. mas confio no john lennon, em termos de planos ;-)


  • sininho

    ahahahah! o que eu me ri com a do pino desajeitado…

    quando é que vens ao litoral e deixas o interior? ;)


  • little joe

    quem me dera, como tu, não sentir a falta da areia entre os dedos dos pés… do sabor salgado nos lábios… dum volleybol… da pele queimada que dói quando a arrefeces com um mergulho… da areia na boca por causa dum pino desajeitado… da malta que se conhece só em fato-de-banho e cabelo molhado… ;-)


  • sininho

    i know you do!


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